
A violência está presente na vida da sociedade atual de forma tão absurda que nos contentamos quando a violência que sofremos não é ‘tão grave assim’ ou ‘podia ser pior’. Se formos avaliar seu conceito no dia-a-dia iremos ver o quanto é absurdo quando alguém é assaltado e as pessoas instintivamente pensam e/ou falam “Pelo menos não fizeram nada com você, só levaram suas coisas”. É ÓBVIO que é melhor que levem as coisas do que machucarem a pessoa, mas para pensarmos que é ‘normal’ levarem as coisas é porque a situação está em estado de calamidade e já foi banalizada. Muita gente se machuca e muita gente morre por conta da violência.
Facilmente perde-se a noção do valor estatístico tão absurdo e crescente deste processo. De forma geral, falta uma tentativa de observar as coisas de fora, como se estivesse sentado num banquinho de praça observando crianças brincando e avaliando seus comportamentos e remetendo-se ao passado (só cuidado para nessa hora não levarem sua bolsa ou puxarem o celular do seu bolso!). Quando se olha como espectador com atenção e vontade real de compreender uma situação, às vezes, fica mais fácil para indagar-se, indignar-se e compreender.
Apesar de ser vantajoso olhar de fora, um grande problema para a compreensão de cada um em relação ao nível da violência é que, dependendo do meio em que a pessoa vive, ela presencia mais determinado tipo de agressão e isso, muitas vezes, faz com que ignore as outras formas.
Um dia desses, eu estava conversando sobre isso com minha mãe. Ouvíamos uma musica do Gabriel O Pensador chamada FDP³ (Filha da puta ao cubo), na qual há um trecho assim:
“E tem outra espécie
De filha da puta que me emputece
É o pai desnaturado machão frustrado que se esquece
De que o tempo das cavernas já passou
E bate na família quando não devia nem bater com uma flor
Na mulher nas crianças mostrando toda a autoridade
De um homem primata no seu machismo covarde
Quando você vê na rua uma mulher com o olho roxo
Tenha certeza que ela é a mulher de um frouxo
Um Zé Ruela que com ela é agressivo, sem diálogo
Trata como égua porque é um cavalo
O autoritário da família, não tem autoridade além da força bruta
Bate no filho e na filha porque é um...”
Minha mãe falou sobre o aspecto da violencia domestica. Na maioria das familias de classe media isso não é uma realidade. Eu nunca presenciei nem conheço alguem que tenha passado por isso. No entanto, no hospital que ela trabalha, ela atende pacientes que são vitimas deste tipo de violencia e mesmo algumas colegas que trabalham no mesmo estabelecimento, mas em funções que não exigem nivel universitario já contaram para ela de casos sobre isso.
Quando conversamos sobre isso fiquei pensando sobre o quanto o ser humano pode ser omisso e não conseguir olhar adiante. É incrivel como podemos ser frios, mesmo sem querer. Todos esses conceitos, essas questões sobre o tema, são muito preocupantes. Onde será que iremos parar? As autoridades repassam a responsabilidade, a população fecha os olhos e os bandidos comemoram por seus feitos com a dor alheia e continuam a espancar, matar e roubar.
2 mensagens:
É, você tem razão, Raissa. A violência hoje em dia é tratada de uma maneira estranha. A regra agora é ser totalmente cauteloso. E a pessoa que anda desatenta e despreocupada pelas ruas é vista como louca e "corajosa". Ficar tranquilo é exceção.
A violência tá tomando a gente. Poucas são as pessoas que sabem e conseguem se defender e reagir diante de uma situação assim.
Como você, eu também não sei no que isso vai dar.
Muito bacana essa sua mostra de percepção, Raissa. Continue vendo, indignando-se, pensando sobre e escrevendo, pessoas como você fazem muita coisa mudar e a cada um de nós crescer. Parabéns! Beijão.
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