segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Morte do cisne




Eis que chegou um dia que ela decidiu largar. Largou a dança, largou os sonhos, pareceu-lhe até que largava a vida. Mas é que as aspirações haviam mudado, não tinha mais como continuar com aquele sonho impalpável de que iria viver de dança, infelizmente não era para ela. O pior de tudo é que essa ilusão não conciliava mais com a realidade, como sempre fora, a ficção estava afetando a concretização dos planos reais e óbvios. Para ter tempo para uma vida, agora, era preciso dar uma coronhada na outra. Entre a poesia e a prosa, mais uma vez, ela ficou com a segunda.

O problema desse divórcio com a dança é que a dança não é tocável, não sangra, não é enterrada. Ela é como uma erva daninha que se prende em cada centímetro da alma. Sim, ela largou o local aonde aprendeu a fazer o primeiro plié, parou de ver seus dvds de ballet, mas se escuta um acorde de música clássica não mais controla seu corpo, não é ele que dança ou manda, é sua alma que se mexe como se estivesse a se entrelaçar com a música.

Decidiu, então, que precisava tornar mais real. Guardou suas sapatilhas na ultima prateleira da sapateira. Não era o bastante, não dava para viver o luto quando suas roupas de ballet ocupavam no armário a prateleira que fica na altura dos seus olhos, a prateleira principal, a mais evidente.

Eis que chegou um dia que ela sentiu que devia tirar aquelas roupas de lá. Esvaziou sua prateleira e guardou as coisas num saco qualquer na parte mais alta do armário. Olhou para Aquela, a que abrigara por tanto tempo seus collants e meias calças e vendo-a vazia, sentiu- se vazia. Vazia, vazia, vazia. Isenta de sonho, de arte e esperança. Isenta de dança. Isenta de alma.

{Raissa Vidal}

0 mensagens: